Procrastinando sonhos

Entra dia e sai dia, e eu ainda não compreendo o que faz milhões de pessoas passarem 1/3 de suas vidas, se dedicando à algo que não está diretamente conectado a uma conquista pessoal. Eu sei que a maioria dos seres mortais, faz isso por questão de sobrevivência. Afinal, o problema não está em fazer todos os dias o que não gosta, o problema não é acordar cedo e passar grande parte da vida ao lado de pessoas que não são os filhos, o namorado, a prima, aquela melhor amiga que te faz rir das coisas banais. Eu diria, que o problema também não é a ausência de um salário gordo no final do mês (e também sei que muitos dirão que isso resolveria todos os problemas, mas acredite, não resolve). Percebo que o grande problema é a falta de propósito. É não saber. E para muitas pessoas, não ter a mínima noção de qual é a verdadeira paixão. E então, por falta de motivação, auto-conhecimento e confiança, acabamos aceitando que a vida é isso mesmo. Desde que o mundo é mundo, pessoas precisam trabalhar duro para conquistar coisas e serem merecedoras de uma vida digna. Para poder comprar o que irão comer, ter o que vestir, algumas vezes escolher que carro ter e onde passar as próximas férias.

Sabe… por mais que essa rotina nos passe um sentimento de segurança, existe algo por trás de tudo isso que nós não notamos. O ciclo.Pessoas nascem, crescem, estudam e morrem.Morrem porque quando começam a vida profissional é quando deixam de lado toda a parte divertida e entram naquele mundo cheio de obrigações, horários, metas, tempo e riscos. Morre o tempo gostoso de ficar sem fazer nada com o filho. Morre também aquele encontro semanal das amigas. Morre a disponibilidade para ficar até mais tarde vendo tv com a família. Morre até o seu poder em decidir que dia vai acordar mais tarde e que dia exatamente vai ficar quietinho, pra escolher só não fazer nada além de tomar sol, escrever e sentir a vida.E principalmente morre aquele sentimento que você pode ser o que você quiser ser. O nosso céu fica menor, nosso mundo fica mais óbvio e mais previsível.

Eu por exemplo, venho à alguns anos tentando mudar essa realidade na minha vida. Tenho treinado gradativamente deixar de fazer apenas o que eu “tenho” que fazer, pra começar a me dedicar àquilo que eu realmente almejo fazer. Tenho noção do que eu quero pra minha vida e não faço muita ideia de onde o caminho que quero ir vai dar. Mas ao mesmo tempo, essa rotina louca de obrigações acaba engolindo aquela menina sonhadora e esperançosa que grita para ser libertada.

Já percebi que sempre terá um vilão. Um dia era a faculdade. Depois era o casamento. Aí, se tornou a boa oportunidade, somada ao novo salário proposto.  Então surgiu a perspectiva de promoção. Logo em seguida veio o combo de possibilidades. Da especialização. Do status quo. Das responsabilidades assumidas e oportunidade de uma nova promoção. Mas aí as horas de trabalho se tornam maiores e proporcionais aos novos desafios assumidos e os momentos em casa se tornam escassos e menores, desproporcional ao amor pela família e pela vida. A sua única e exclusiva vida. Você, essa pessoa única no mundo, está meio presente nos momentos onde supostamente está livre pra ser você. Isso tudo para alcançar algo que na altura do campeonato, você nem se lembra mais o que é. 

E quando se dá conta, já se passaram anos. Seu filho, que até ontem era um menininho sorridente e cheio de travessuras, já se formou na faculdade. Aquela sua tia tão especial, já não está com a energia de antes. E olha você no ciclo… bem no centro. Sendo engolido por todas as rotinas criadas por você mesmo, para provar a não sei quem, que  você precisa disso tudo pra ser alguém. Mas só se esqueceu que não precisava provar nada e que nada disso tudo foi essencial pra você ser feliz.

Isso não é uma crítica aos que trabalham todos os dias sob a luz artificial e paredes de um escritório e ama a vida corporativa. Se é o seu caso, que ótimo, porque a motivação e felicidade é um sinal de que esse aí é verdadeiramente o seu mundo, o seu sonho e uma carreira é sim o seu propósito – e não tem nada de errado nisso. É uma reflexão sobre entregar-se de corpo e alma, pra valer, 24 horas por dia. Mas se entregar à algo que verdadeiramente faz sentido. Algo que faz o coração vibrar apesar de todas as consequências. De ter a certeza que está ali fazendo o que melhor sabe fazer, fazendo o que ama… e que se não sabe fazer tão bem quanto gostaria, que esteja pronto para dedicar o que for necessário para sim, ficar realmente bom e atingir o resultado máximo. O resultado final pouco importa, se o percurso todo para chegar até lá for animador, vibrante e feliz, é tudo o que conta. Esses momentos são impagáveis e ter a sensação de usar o seu tempo tão precioso na total sintonia com sua essência, é o que dá sentido a nossa estadia nessa vida.Qual o objetivo de cada um aqui, se não ser o melhor naquilo que veio ser? Ser humano não nasceu tão diferente um do outro por acaso. Cada um de nós tem sim, uma parcela a dar e fazer a diferença no mundo. Uns com mais intensidade, outros com menos.

Não é sobre posição social. É sobre ser líder da própria vida e dar um sentido real ao que de mais precioso você tem e que jamais voltará a ter: o seu tempo. O hoje. O agora.

Eu me cobro muito, porque gosto do que faço, sou dedicada à minha profissão, mas sempre encontro motivos para protelar a decisão de me entregar de cabeça aos projetos pessoais e deixar as responsabilidades da vida corporativa. Que apesar de ser o maior ganha pão no momento, não deixa de ser apenas um status social atrelado à atividades que eu “curto” fazer. É ok. Está no caminho, mas é uma passagem apenas e é de longe onde eu quero ficar e criar raízes. 

Essa mudança de rumo, é uma decisão, um caminho difícil de seguir e principalmente de adquirir a coragem para trilhar. Mas é algo que deve ser construído aos poucos, com determinação e muita persistência, pra poder um dia finalmente ter coragem de cortar laços que não são tão significativos e construir laços que serão imprescindíveis para os melhores momentos de suas vidas.

Por isso que eu realmente admiro as pessoas que empreendem no Brasil. Que mesmo em momentos difíceis, com uma economia instável presenciada ultimamente e situação política dolorosa que nos encontramos, ainda encontram forças para vencer e lutar.  Que façamos parte das pessoas que nascem, crescem, estudam e vivem por muitos maravilhosos anos.

E que essa força esteja cada vez mais presente na vida de muitos de nós.Eu estou buscando a minha. E você?

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